quarta-feira, maio 14, 2008

É aí que mora o perigo...

Paulo Gracindo foi o melhor intérprete da classe política com o seu imortal "Odorico Paraguaçú". Foto: Reprodução.


Desde moleque sempre fui vidrado pelo surf. Lembro claramente de um dia de sol radiante, eu tinha uns 5 ou 6 anos de idade, mais ou menos, e meu pai me levou à praia. Meu pai não era muito de praia, acredito que por ser marinheiro ele não tinha muito saco pra andar na beira da praia. Mas, sempre que eu e minhas irmãs pedíamos ele nos levava. Eu, pelo contrário adorava o mar. Naquele dia a água era transparente, de um verde esmeralda lindo. No canto da Praia da Vila, eu mergulhava e nadava com alguns amigos. De repente vi um objeto que nunca tinha percebido no mar. Ela veio em minha direção deslizando sobre uma onda até a beira da praia. Não sabia bem o que era aquilo, mas fiquei impressionado com a visão. Era uma prancha verde, com as bordas amarelas. Fiquei vidrado nela. Peguei a prancha meio sem saber o que fazer. A poucos metros dali um galego cabeludo vinha nadando atrás da prancha. Quando levantou entreguei a prancha ao cabeludo e ele deu um sorriso, agradecendo em seguida. Dois anos depois conheci pessoalmente o cara, era o Cacá, um dos melhores surfistas que Imbituba já teve e é o falecido pai do Jatyr Berasaluce, outro ótimo surfista Imbitubense, que atualmente está quebrando no circuito europeu.
Jatyr Berasaluce entocado nas Maldivas. Semente do saudoso Cacá. Foto: Juan Fernández.
Daquele dia em diante passei a observar o movimento dos cabeludos dentro d'água, coisa que não percebia anteriormente. Naquela época não havia compromisso com nada, além de deslizar sobre as ondas. Somente 6 anos depois fui oficialmente apresentado ao surf. Com pranchas de isopor de alguns amigos, comecei a dar as minhas primeiras braçadas. A minha primeira prancha, que comprei com as minhas economias laborais - por ser de família humilde comecei a trabalhar aos oito anos e ao contrário do que hoje prega o direito da criança e do adolescente, não precisei parar de estudar, nem tampouco larguei os estudos, pelo contrário desde cedo tive a consciência do valor de cada coisa adquirida com suor do meu esforço - foi adquirida no verão de 1988. Era uma Litoral Sul, feita pelo Mézo, surfista e shaper de Imbituba, nas cores amarela e laranja. Era o meu sonho que se materializava. Antes disso já devorava tudo o que dissesse respeito ao surf. Revistas, encartes, fotos, adesivos (quem não tinha adesivos no vidro do quarto estava completamente por fora do movimento). Dessa forma, devorava tudo o que estivesse ligado ao surf. De lá para cá se passaram vinte anos, desde a minha primeira parede surfada no Castelinho, com uma surfline quebrada no meio e pintada de um vermelho tosco. Ninguém viu essa onda, eu estava sozinho na praia e a minha frustração foi tamanha. Afinal, até aquele dia eu dropava reto os caixotões do Castelinho e da Pedra Ferro. Mas, a felicidade foi tão grande em fazer a minha primeira parede que a frustração passou no caminho de casa. A partir daquele dia, me senti um surfista de verdade, no alto dos meus “treze anos”. E aquele espírito descompromissado de outrora ainda permeava o sonho de qualquer garoto, inclusive o meu.

Muita coisa aconteceu nesses vinte anos, não apenas na minha vida. Estudos, carreira, família, obrigações do dia-a-dia que o fazem esquecer até dos sonhos de moleque. Mas, dentro d'água nada disso importa, é só você e a prancha sintonizados com o mar. Não há meio termo, ou você está ligado naquele exato momento do "take off" que descortina um leque infinito de oportunidades, imaginação e curtição ou vai ficar boiando o banho todo.
O surf como um todo também sofreu mutações que podem ser atribuídas ao tempo e à tenra maturidade alcançada. O surf esporte que era tão marginalizado está atualmente nas revistas não especializadas, nos jornais, na televisão e na mídia em geral, sendo apresentado como um esporte saudável e, conseqüentemente praticado por cada vez mais pessoas de outros meios.
Ainda falta muito para o surf alcançar o status ideal, tanto como esporte, como meio de sobrevivência para os atletas, treinadores, árbitros de surf, enfim o pessoal que está diretamente ligado ao esporte. Mas, acredito que já enterramos parte daquele velho estigma de esporte de drogados e alienados. Já temos posições bem definidas sobre o que queremos. Muito embora, não tenhamos ainda nos unido de forma convincente para coibir inúmeras barbáries realizadas contra o meio-ambiente, especificamente, no que diz respeito ao ambiente marinho, no qual passamos a maior parte do tempo em busca da onda perfeita.
A sociedade parece que acordou e conseguiu visualizar a qualidade de vida que está ligada ao surf e o movimento financeiro que o surf pode realizar, seja através do turismo, da realização de eventos, e, principalmente, da indústria ligada ao esporte.
Já “somos” uma classe pensante (?) e em ano de eleição é bom ficarmos ligados nas “promessas salvadoras” de um futuro melhor apresentadas por pregos que aparecem nas praias, sujando de areia seus sapatos lustrados e molhando as barras das calças com água salgada. Os Odoricos Paraguaçús rondam também as praias, fazendo promessas como aquelas proferidas pelo prefeito de Sucupira.
É aí que mora o perigo...
aloha,
Beda Batista
2B Surf

3 comentários:

Surf4ever disse...

Beda, estou eu aqui de novo para te parabenizar por mais um belo texto. Esse relato do começo do teu surf foi sensacional, cara. Abraço,
Gustavo

Beda Batista disse...

Valeu Gustavo, obrigado mais uma vez. Acredito que a iniciação no surf há alguns atrás tinha um quê de poesia. Era puro feeling. Não existia escolas de surf, nem tampouco as facilidades de hoje.
Fora as roubadas em que nos metíamos para pegar ondas em outros picos.

grande abraço,

aloha,

Beda.

Katz Sullyvan disse...

beda,altos texto esse hein, e os edoricos jah se criaram mais em nossas águas... pra nossa sorte estamos evoluindo e muito para evitar essas cobras criadas em nossos meios.

good waves!!!!