quarta-feira, abril 23, 2008

Esporte Ingrato...

No último post falei sobre o vice-campeonato conquistado pela ASI no Circuito Catarinense de Associações de 2007, finalizado na Praia do Santinho, em Florianópolis, nos dia 04 e 05 de abril de 2008. Num protesto pessoal, resolvi não escrever enquanto estivesse puto da cara. Eu estava irado, não com o resultado do evento. Embora não tivéssemos conquistado o título, um vice-campeonato estadual entre 32 associações não é um resultado ruim. Mas da maneira como me senti lesado, por ter sido comunicado de algumas restrições em cima da hora. Águas passadas não movem moinho, então seguimos o curso das águas e estou aqui novamente falando mais uma vez da última etapa do Billabong Surfing Games, o Circuito Catarinense de Associações.
Quem esteve na praia no domingo, de sol e com altas ondas, presenciou um show de surf em todas as categorias, confirmando o alto nível competitivo dos atletas catarinenses, desde as categorias de base até os mestres da categoria homônima.
Naquele domingo depois da premiação estávamos na pousada fazendo um balanço dos erros e acertos que tivemos na última etapa e descontraindo antes de levantarmos acampamento da Ilha de Santa Catarina.
Conversando com Fábio Carvalho, que é sem sombra de dúvidas, o maior nome do surf Imbitubense até hoje. Conquistando diversos títulos: Campeão Catarinense Amador em todas as categorias em que competiu (Mirim, Júnior, Open; Bi-Campão Catarinense Profissional, Top 16 do Circuito Brasileiro e Catarinense, Campeão Imbitubense PRO-AM, Campeão Sul-Brasileiro Profissional, Campeão do 1º Desafio No Fear de Ondas Grandes, Representante Imbitubense no WCT Brasil 2007 e por aí vai.
Fábio Carvalho, é um cara exemplar dentro e fora d'água. Nesta foto durante o Hang Loose Santa Catarina PRO 2007 sendo aclamado por uma multidão. Foto: Aleko Stergiou.
Fabinho, como é carinhosamente conhecido pela galera do surf, é um cara iluminado. Dono de um carisma inigualável na principal surf city do sul do Brasil, o cara irradia uma luz própria que ofusca muita gente. Poderia ter sido facilmente um Top do Circuito Mundial, surf ele tem de sobra. Quem não lembra das seguidas escovadas do Fabinho no Neco Padaratz em vários campeonatos do Circuito Catarinense? Mas a vida dá voltas e nos prega muitas peças. Essas que o destino nos arma vez por outra. Quando estava despontando no cenário competitivo brasileiro sofreu uma grande perda pessoal que abalou a sua estrutura emocional e o fez abrir mão de viajar para ficar mais próximo de sua mãe e seus entes queridos. Alguns diriam que fez a escolha certa, outros não. Mas quem pode julgar ou não as decisões que tomamos em nossas vidas? Senão nós mesmos?
Certamente, as decisões tomadas por esse guerreiro Imbitubense foram as mais acertadas para ele como pessoa e não há ninguém que possa dizer o contrário.
Naquele domingo conversando com ele na pousada depois de assistir o maior show de surf apresentado no evento, disse à ele o quanto o surf é um esporte ingrato.
Deixa eu explicar:
O evento tem sua concepção em “Fast Heat” ou baterias rápidas. Nesse sentido, as baterias são de apenas 10 minutos e foi convencionado, entre os chefes de equipes e o head judge, no início da competição que poderiam ser surfadas até 3 ondas (normalmente são 2 ondas) mas somariam apenas as 2 melhores notas. Na semifinal, com quatro atletas, Fabinho precisava de 0,45 pontos para se classificar, atrás de Júnior Maciel, representante da Guarda do Embaú, deixando para trás Alessandro Castro, em terceiro e Carlos Santos, em quarto lugares, ambos representando a Joaquina e a Praia do Rosa, respectivamente.
Acontece que essa onda não veio, até a regressiva. Quando foi iniciada a contagem regressiva, Fabinho dropa reto numa espuma de dar dó e a bateria é encerrada. Eu tinha perdido as esperanças, quando foi anunciado pelo locutor “Fabinho Carvalho precisava de 0,45 e ele conseguiu....” A explosão de alegria foi imediata. Nosso guerreiro mais uma vez mostrou que não devemos desistir nunca. Mas a história estava apenas começando. Depois de encerradas as semifinais das outras categorias foram iniciadas as finais de todas as categorias. Mais uma vez Fábio Carvalho mostrou que um surfista não é feito apenas dentro d’água, mas que as ações praticadas em terra refletem no surf e nas oportunidades que se apresentam também nas competições.
Na bateria final Master Fabinho deu um show de surf. Aos 2 minutos da bateria Waldemar Wetter, o Bilo, abriu a bateria com uma nota 3,25. Em seguida Fabinho pegou uma onda da série e veio esculachando a bendita com o seu variado repertório de manobras até a beira, aonde completou um tubo seco para delírio de todos que assistiam a bateria. Nota 9,50 que merecia um 10. Junior Maciel pegou uma onda fechando e marcou 0,90. Nesse momento Fabinho voltava ao outside quando entrou outra série. Ele não titubeou e pegou a onda que David Husadel remou e não entrou. Novamente uma mostra genial de um surf altamente competitivo. Fabinho quebrou a onda até o inside, marcando 8 pontos e deixando os outros atletas em situação complicada. Fabinho voltou ao outside e pegou a próxima onda da série, novamente fazendo um tubo que não abriu como o primeiro, mas finalizando com uma porrada na junção em que muito marmanjo alisaria. Terceira onda nota 7,0 que entrou no descarte. Fabinho liquidou a fatura, fez a maior somatória do evento, 17,50 pontos, além da melhor onda da competição, um 9,50, deixando os outros atletas em combination. Ou seja, precisavam de uma onda extra para alcançar o velhinho. Em 5 minutos de bateria Fábio Carvalho mostrou o quão ingrato o surf pode ser.

Fabinho quebrando a onda do Santinho para marcar 9,50 pontos e garantir mais um show de surf na carreira. Foto: Basílio Bosquê Ruy.

Se aquela onda “retside” não tivesse aparecido na regressiva da semifinal, a praia inteira não assistiria ao show proporcionado pelo “Galo de Imbituba”, um cara humilde, acessível e boa gente que faz dos vieses da vida o combustível para continuar lutando e surfando. No seu discurso emocionado no momento da premiação, confesso que chorei. Chorei por ver ali um guerreiro, um cara de um coração gigante que compartilhava com toda a equipe não apenas àquela vitória, mas uma carreira toda de superação de obstáculos seja por falta de patrocínio, por perda de pessoas das quais ele amava, e, acima de tudo, por ter que provar sempre que tem surf no pé.
Parabéns Fabinho, tu és o CARA.

Aloha,

Beda Batista
2B Surf

5 comentários:

Giovanni Mancuso disse...

Tô contigo Beda, o Fabinho é o perfeito "gigante gentil"!
[]s
GM

Beda Batista disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Beda Batista disse...

E aí Giovanni tudo bem?
Realmente! Como diria o Máurio, lá da Ilha da Magia, "o cara é um monstro ô"!
E continua com a mesma humildade do início da carreira.
São exemplos como o do Fabinho que os moleques deveriam seguir quando querem fazer carreira no surf.

Aloha,

Beda.

Eduardo Rosa disse...

Beda. Legal vc ter lembrado desta forma alto astral do "Prego" da Zimba, como era conhecido no catarinense quando disputava na década de 90. Gostaria de colocar um fato; Fabinho já havia levado 2 finais de catarinense em Imbituba, advinha em cima de quem?...É, dele mesmo, Neco. E em outra final aqui na Zimba juntou ele, o Roni Ronaldo e mais dois que não me recordo agora. Tu deves se lembrar. Foi uma bateria histórica, não apenas pelo surf do Fabinho, mas sim pq os oponentes surfaram além do que eles normalmente surfam, prá ganhar do melhor surfista da região a época. Mas voltando ao assunto, ele havia feito duas ou tres finais na Joaca e na Mole e não teve a sorte de pegar o Neco na final. Nas vezes que ele venceu na Vila fiz questão de carregar-lo nas costas, pq como tu também sabe é emocionante vê-lo ganhar uma final. Mas na Joaca teria um sabor melhor mas ainda não tinha acontecido. Até que um dia aconteceu... Não me recordo o ano, e eu vivia nos campeonatos, fosse trabalhando, fosse apenas assistindo. Final, Neco, Fabinho e mais dois. Na realidade foi uma disputa separada entre os dois. Um dos outros dois acho que era o Rodrigo Waslawiki. A bateria começou e o Neco abriu esculachando uma esquerda. Ele sabia e não queria dar mole. Depois pegou outra quebrando. E Fabinho ainda nada. Os outros atletas também tinham cada um a sua e o "Prego" nada. Eram 20 minutos de bateria, e aos 12 Fabinho só tinha entrado numa e caído. Tava nervoso, acho que pq tava no palco do surf Brasileiro e mundial da época e um pouco cansado pois havia disputado tres baterias só naquele dia. Mas derrepente aos 13 ou 14 minutos - eu já tinha perdido as esperanças - despenca numa direita lá fora, além outside - e o mar tava mais de esquerda - o camiseta preta, como anunciou o locutor. Eu pensei: - Direita?!! Não é que ele tava certo! A onda abriu um braço alinhado e longo. Foram 4 ou 5 batidas, dois cut backs reentry - alguém lembra o que é isso? -, 1 floater e uma escovadinha no final. Poucos antes da bateria, estava conversando com Julio Cavaleiro, fotografo do Diário Catarinense, e pedi prá ele prestar atenção no camisa preta. Na realidade ele veio bater fotos do meu lado. Daquele dia, claro, surgiu uma grande amizade. Até antes daquela onda, Júlio que recém havia começado a frequentar campeonatos de surf só havia ouvido falar de Neco, Luli, Guga, etc. E ainda mandou esta: - Ele vai pegar alguma ou não. Acho que não tem mais chance. Na primeira os juizes, como sempre aliviaram a nota dele, deram um 8 pois, uma outra onda do Neco, haviam dado 8,5, e nem chegava aos pés dela. Voltou prá fora pegou outra e fez um - veja bem - 7,83. Dificilmente as notas naquela época saiam quebradas assim. E o Júlio prá mim; - O piá pega bem mas acho difícil ganhar. Isso faltando 2 minutos pro final. E o Prego tava no inside se matando prá voltar prá fora. Nessa altura, já tava em segundo com apenas duas ondas. O Neco tinha, um 8,5, um 8 e um 6,5, fora as outras notas, claro. 50segundos e o camisa preta senta no outside. Nada de série entrando. Ele, então, como muitas de suas loucuras que já vi comentendo nas baterias, se afasta da galera, remando mais prá esquerda do palanque. O Neco, então desiste de marca-lo. Tava liquidada a fatura, deve ter pensado o mais novo dos PAdaratz. E o Júlio; - Deu prá ele Tche!!. Baixou a lente e já ia saíndo, quando eu gritei; - Lá vem!! A 10 segundos do final, não sei de onde, nem como apareceu uma esquerda, lisa aberta e alinhada com cara de que ia fechar. A maior da bateria - quase 1,5 metro -, e na primeira manobra um floater longo e totalmente controlado. Das 3 batidas retas que deu, uma foi na frente do Neco e dos outros atletas. Um meio tubo de grab rail, uma conectada para o inside e mais 2 cut backs e 3 batidas até chegar na beira. O locutor chegou a se engasgar quando anunciou o final da bateria, no exato momento em que o Prego passava na frente do Neco. Comecei a caminhar na direção dele que estava saíndo lá no meio da praia da Joaca. Cheguei a pensar que eles não iriam dar a nota que a onda realmente merecia. Prá mim e prá muita gente na praia aquela onda valia um 10 ou mais, até pelo conjunto da obra. Deram um 9,5, mas era o suficiente. Tava realizada a proeza em plena Joaca. Nas costas até o palanque, com direito a foto no DC e na Notícia. Foi um dos maiores momentos que presenciei na carreira do Fabinho. Muita gente, por isso, me chamava de puxa saco. Mas eu tava lá, e presenciei uma das maiores viradas da história de um atleta imbitubense, em plena praia da Joaquina. A partir dai, o Neco viu que não tinha jeito.
Desculpe o texto longo Beda, mas só assim prá contar estas histórias. E pq o Prego merece todas as homenagens, em memória ao Seu Flávio, a Dona Chica e ao Flavinho seu irmão. Abração camarada.
Eduardo Rosa

Beda Batista disse...

Fala Eduardo...post que vale por um texto hein? Imagina, não deves se desculpar por uma contribuição como esta. Eu é que te agradeço.
Realmente o "Prego" é uma cara ímpar e de um carisma inigualável no meio.

Grande abraço,

Beda.